Diversidade Asperger Diversidade Asperger Author
Title: DESABAFO: Relatos de uma mãe Azul!
Author: Diversidade Asperger
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Sou Cláudia, tenho dois filhos, Marília com 17 anos e Sérgio Guilherme com 9 anos nesta data. Antes deste segundo filho minha vida não...

Sou Cláudia, tenho dois filhos, Marília com 17 anos e Sérgio Guilherme com 9 anos nesta data. Antes deste segundo filho minha vida não tinha um norte. 


Tudo que eu começava logo algo me desmotivava e pronto... mais uma tentativa frustrada.

 Tudo começou a mudar quando meu pequeno tinha 01 ano e meio de idade. Fiz alguns testes e percebi que algo estava errado, pois não atendia aos meus comandos. Criei coragem e não esperei nem mais um minuto. 


Liguei para o Sérgio (pai) e, em um ato de coragem, disse que algo estava errado com nosso filho. 

Para minha surpresa mais coragem ainda ele acreditou em mim e marcou de cara uma consulta com uma neurologista e ai começou a nossa longa estrada... exames, indicações e mais exames. Foi então que Deus foi colocando pessoas certas nas nossas vidas, pessoas que conseguiram desvendar alguns pontos importantes e então finalmente um geneticista (Dr. Massa - HRAS). 

Ele pediu um exame que, com o resultado, veio o diagnostico: meu filho é autista. Bom, ao chegar em casa não tive tempo para chorar, o ponto primordial foi o apoio deste PAI maravilhoso que o Gui tem, nos acompanhou em tudo e NUNCA nos abandou Foi aí que comecei a ganhar forças pra lutar, pois a guerra estava marcada e sem tempo de acabar. 

A única coisa que tinha em mente era que eu precisava prepará-lo para a sobrevivência. A minha vida que não tinha muito sentido ganhou rumos da noite para o dia. Ocupamos todo o tempo entre exames e  terapias e tudo que nos era indicado a gente corria atrás, pois SEMPRE acreditamos que ele iria conseguir vencer, era questão de tempo. 

E nestas caminhadas encontramos muita gente positiva que nos reerguiam e gente que nos derrubavam com palavras desmotivadoras, tipo: seu filho não vai falar; admiro a sua coragem, pois deveria estar cuidando de você; ele não tem jeito... e foi com essas pessoas que aprendi a não desistir e seguir sempre em frente, deixando muitas coisas de  lado e priorizando o nosso objetivo, prepará-lo para o mundo. 

Teve dia que eu pensava em desistir, mas no dia a dia encontrava pessoas que, com seus preconceitos, me davam gás para continuar. Pensei até em escrever um livro: perguntas idiotas, respostas  inteligentes, mas não tive tempo. Sempre eu conseguia encontrar pessoas para questionar: "O que ele tem?" 


Eu respondia: Pai, mãe, irmã, coração, amor... A pessoa insistia: "Não, eu quero saber de doença?". Eu na maior ironia respondia: "Qual a sua especialidade?". Outras vezes encontravam pessoas nas paradas de ônibus que o olhavam dos pés a cabeça.

 No mesmo instante eu cruzava os braços e começava a olhá-las da mesma forma, balançando a cabeça dos pés a cabeça. Eu ria por dentro de ver a reação imediata delas, virando pra frente. Foi assim que eu cada dia me fortalecia mais e mais. 

Em um belo dia ao levá-lo ao dentista, na volta para o carro, ele caiu e entrou uma pedra na sua mão e o sangue escorreu. Percebemos que ele não chorou, as lágrimas vieram dos nossos olhos e pra ele foi natural. Não entendemos o que ele sentiu ou se sentiu. 

Em uma conversa com uma especialista descobrimos que nosso filho, apesar de ter audição, visão aguçada e dono de uma memória fantástica, ele não sentia dor e não tinha paladar definido. Não quis nem saber o porquê, quis apenas saber se tinha algo a fazer e aí começamos a luta. Exemplos: chupar limão e comer açúcar; quente e frio; buchas ásperas nos pés, pentes nos pés. 

Assim foi até que vencemos mais uma etapa. Namoramos sandálias havaianas anos e anos, pois ele era dono de uma sensibilidade incrível, não suportava nada entre os dedos. Assim começamos outro trabalho e hoje eu pude realizar mais um sonho: meu filho usou as primeiras havaianas (o segredo não desistir). 

Sempre compramos as havaianas e números diferentes, conforme o pezinho crescia. Resultado: todas para doação, mas isso não nos tirava a grande vontade de um dia ele calçar uma sandália. Hoje, quando deito, vem aquele filme na minha cabeça da primeira vez que o levamos a uma missa. Se muito conseguimos assistir uns dez minutos e, nestes dez minutos, pudemos ver as pessoas mudando e lugares, se afastando. 

Com isso tomamos então a decisão de levá-lo a missa das crianças, assim sentiríamos mais a vontade e a luta continuava. Cada sábado conseguíamos uns minutinhos a mais e assim pudemos perceber que ele iria conseguir e tudo seria questão de tempo e paciência. 

Hoje posso ver meu filho assistindo a missa completa, comenta sobre a homilia, gosta de rezar o terço, Pai Nosso e Ave Maria, além de sempre faz o oferecimento e agradecimento, nosso orgulho. Nestes anos aprendemos muito. Ele nos ensinou que castigo não existe e que premiação funciona muito bem. 

Foi assim que transformamos nosso apartamento, colocando gravuras nas paredes, faixa de pedestre no chão e placas de transito por toda o local e, em um belo dia, ouvi meu filho dizendo o alfabeto de trás pra frente. Foi ai que percebemos que ele já conhecia as letras e através das gravuras (sistema ABA), alfabetizado com sucesso. 

Lê e escreve muito bem. Sua irmã é um grande exemplo, já que lê muito e capricha nos cadernos e tudo ele quer imitar. Dou graças todos os dias de minha vida por ter um pai maravilhoso que Deus deu ao meu filho. Transformou sua vida em função do filho, o amor dos dois é tão lindo que às vezes eu tenho duvida se ele não foi gerado na barriga do pai. Quem os conhece sabe do grande amor que tem um pelo outro. Falo que o Gui é à sombra do pai e só separam na hora do colégio. 

Antes mesmo do diagnóstico o pai já estava sendo capacitado por Deus, pois tudo que os especialistas diziam que tinha que fazer o pai já fazia sem saber. Um exemplo é sempre respeitar o Gui e contar porque estávamos calçando o tênis nele, porque estava vestindo tal roupa e o que iríamos fazer ao sair. Em casa ele sempre participava e participa das tarefas, auxiliando quando iríamos guardar as compras e qualquer outra coisa a fazer. 

Foi ai que ele foi distinguindo o milho do feijão, além de outras coisas e, assim, aproveitávamos cada minuto para mais um aprendizado. Hoje sinto uma admiração total pelo atleta que seu pai se transformou, pois foi para o filho que ele decidiu partir para as corridas, pois os bons exemplos sempre serão seguidos por um autista e assim se confirmou, hoje somos uma família que sempre corremos unidos. Há três anos o Gui virou atleta. Caminha em média 4 km por dia e chora quando acaba. 

Mesmo com tantas tarefas do dia a dia estou concluindo minha pós em psicopedagoga clínica. Graças a meu filho eu descobri minha vocação que, até então, nada chamava minha atenção. E o que nós esperamos? 

Esperamos em Deus um mundo mais humano, onde haja mais respeito e que sempre poderemos nos colocar no lugar do outro, pois assim saberemos contribuir para uma grande evolução. 

Não há mal que não tenha cura. 

Esperamos que outras gerações não passem pelo que passamos, que não precisem lutar tanto, que os direitos sejam realmente utilizados, por que do nosso filho sabemos da sua capacidade e hoje não tenho medo mais da morte, sei que ele será muito mais do que sonhamos. 

Família do Sérgio Guilherme!

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